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Dia Mundial do Teatro

ESMAE

Que (re)Viva o Teatro


RETOMA

Pediram-me, por estes dias, que contactasse alguns alunos antigos da ESMAE de modo a poder obter deles, uns quantos depoimentos que testemunhassem a sua passagem pela nossa escola. E saber o que estão a fazer. E o que fizeram entretanto. Que palcos frequentaram. Onde é que vimos a sua arte e quando. Que textos animaram e insuflaram de presente. Que personagens defenderam. Com que mestres cruzaram as suas competências. O que resultou desse convívio.

Esse contacto, apesar de cirúrgico, foi deveras caudaloso porque, para além do cumprimento de uma formalidade frugal, obrigou a que por momentos me recolhesse em retrospectiva nessa guarita solar que é a memória e, por ela, veículo e viagem, relembrar alguns rostos de entre os tantos que retenho e que constituem a história desta escola mas, também, a minha história. Recordar os rostos juvenis daqueles com quem entrelacei amizades que perduram ainda, admirações que o tempo musculou, com quem já privei ou a quem desejo encontrar nesse palco essencial que é o espectáculo. Essa deriva proporcionou-me uma visita rápida a este outro trabalho (o da pedagogia) que provem desse outro, primário e avassalador, mister torrencial que nos tatua a alma, o Teatro. E de como esses tantos encontros mudaram a minha vida.

O teatro deve ser, defende Gonçalo M Tavares num longo poema chamado ALGUNS DÓLARES SOBRE TEATRO E OUTRAS NOTAS MENORES, um bilhete para mudar a vida.
Se não for assim, continua o poeta, não é teatro, "é perda de tempo".

E devia ser assim. Mas também devia ser uma profissão que providencie o pão na mesa, a casa onde se mora, a educação dos filhos quando estes chegarem, o salário justo que cumpre as necessidades primeiras, o prazer aéreo do esforço feito carne, a promessa cumprida. Não devia ser só a poesia pueril de expressões curiosas como a posse de "borboletas na barriga" e as cócegas que lhe sobrevivem. A não ser que as borboletas quisessem dizer pão, ou, se se preferir numa versão mais lírica, pão de ló para a vida, dedos-acrobatas que desenlaçam cabelos emaranhados, uma espécie de ordem que organiza uma forma específica de ver o mundo: essa nova realidade transformada em matéria essencial.

Neste dia mundial do teatro, com os teatros fechados, não há foguetes que alegrem a mesa despida de tantos que fazem da arte de Talma, uma maneira de se viver. E neste caso, de desviver com a esperança moribunda.

Dia dezanove recomeçaremos o caminho, dizem. Duplamente. A escola, (esta escola), e o teatro. De braço dado. Siameses na fome destemperada e no desejo da presença que nos valida. Só existimos porque somos veículos de uma história que se concretiza na sua comunicação presencial. Contra a ideia da solidão, da ausência. A água continua a existir, a correr selvagem e livre, mesmo que por momentos não a possamos reter no copo limpo com que a damos a beber e a observamos à transparência da luz. Mesmo que as margens que a comprimem determinem superiormente o seu curso. Mas nós somos o copo que dá outro sentido à sede. No nosso caso, escola e teatro, à dupla sede que nos fustiga.

Seremos mais livres, mais serenamente livres, mais desassombradamente livres no dia dezanove, quando cumprirmos integralmente as nossas funções: agentes de uma escola que rega esta ideia de teatro; fazedores dessa coisa a que o copo dá corpo; espectadores desse milagre que se vem cumprindo de há milhares de anos para cá.

Que (re)Viva o Teatro.

antonioduraes
26 março 2021

Autor

antoniogorgal@esmae.ipp.pt

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