Entrada > Notícias > Paisagens Monásticas

Paisagens Monásticas

ESMAE

Atendendo às circunstâncias atuais este ciclo de concertos foi cancelado


CANCELADO

 

Março 2020

Ciclo de concertos Paisagens Monásticas

Ensemble Contemporâneo e Coro da ESMAE

Direção musical de Barbara Francke

Obras de Dimitris Andrikopoulos, Eugénio Amorim, Rui Penha e Telmo Marques

 

6 de março, 21h30

Igreja do Mosteiro de Grijó - Vila Nova de Gaia

7 de março, 18h30

Igreja do Mosteiro de Pombeiro - Felgueiras

13 de março, 21h30

Igreja do Mosteiro de Tibães - Braga

14 de março, 18h30

Igreja do Convento de Vilar de Frades - Barcelos

20 de março, 21h30

Igreja do Mosteiro de Arouca

21 de março, 18h30

Igreja do Mosteiro de Rendufe - Amares


Paisagens Monásticas

Ficção sonora em quatro partes – silêncio, tempo, água e voz – para coro e ensemble contemporâneo

  

O que importa realmente não é tanto que as coisas sejam postas nos seus lugares, visto que os lugares são afinal uma convenção como outra qualquer, mas sim que todas as partes de que a realidade se compõe estejam presentes tal qual como na criação integral que o mundo é.

Jorge de Sena in Estudos de Literatura Portuguesa II, Ed. 70, Lisboa, p. 243 (1988)

 

Sendo a música uma das experiências do sensível, quando recentemente acedemos ao convite generoso da DRCN, suspeitamos logo que aquilo a que nos iríamos atrever fazer, deveria passar pela ação de um gesto criador, a quatro vozes, que metamorfoseasse a ideia de paisagem monástica.

Desse deslocamento iria surgir uma arquitetura sonora que pudesse encontrar em nós, ESMAE, a ressonância certa para provocar um jogo de sensibilidades distintas, mas que se atrevessem a pôr em comum o ónus da encomenda no lugar certo. É aí que surge a criação de um campo de trabalho e de pesquisa – paisagem monástica - entre o som ficcionado e o sentido do lugar, entre o sentido da memória fina e o cenário perfeito de um lugar real imaginadopara essa mesma memória.

Foi assim que a noção de lugar de memória, chegada a este jogo de sensibilidades pela voz do historiador francês Pierre de Nora e por nós traduzido em possibilidade de arquivo, se tornou o significante operativo que fez deslocar os quatro compositores convidados para este trabalho para outras tantas dimensões, necessária e conceptualmente diversas.

Se é verdade que um lugar é, afinal de contas, uma convenção, tomamos a liberdade de imaginar a paisagem monástica – espaço/tempo de quietude, de contemplação e de recolha - enquanto proposta irrecusável para que os sons para ela criados pudessem exceder-nos na sua poética e, por isso, desvelar em nós a exigência de uma contemplação activa.

Com esta ideia em mente tornou-se claro que iríamos convocar, em registo livre, vivências musicais auto-referenciais mas que, pela virtude e clareza do projeto, se deixassem atravessar pela ideação atrás mencionada.

Para enriquecer a sua hermenêutica foram acopladas a esse lugar imaginário quatro articuladores de sentido – silênciotempovoz água – que permitiram dar que pensar aos compositores e que, de alguma maneira, abriram neles próprios o desejo de poderem falar a partir da sua própria língua composicional.

Eugénio Amorim (Psalm 84) ficou vinculado ao articulador silêncio enquanto caminho do encontro para, parafraseando Ruy Belo, aqueles que procuram nos sons um recorte para o silêncio que teima a existir no real, apesar das ameaças.

A Dimitrios Andrikopoulos (Revelations) coube o articulador tempo, por forma a torná-lo matéria da história e a ensaiar a possibilidade de reinscrever a música na agenda da memória humana.

A Rui Penha (Haendel with care) foi proposto dar voz à voz enquanto instrumento de diálogo, enquanto ponto de partida para a elegância luminosa das palavras-sons que comunicam e que põem em comum, e no mesmo lugar, a força da sua própria enigmaticidade.

Finalmente, coube a Telmo Marques (Aqua) expor a força ontológica de um lugar ficcionado que conquistou, na fronteira da linguagem musical e do imaginário humano – eis a força da água - a fluidez suficiente para requisitar e tornar indispensável, em nós, o carácter flexível, poroso e metafórico de uma paisagem monástica

Talvez seja isto, afinal de contas, aquilo que compõe a criação integral do mundo.

 

ESMAE, fevereiro, 2020


Autor

antoniogorgal@esmae.ipp.pt

Partilhar