O Empresário
e Outras Bagatelas, de Mozart e não só
O Estúdio de Ópera da Escola Superior de Música e Artes do Espetáculo (ESMAE) apresenta, nos dias 5 e 6 de junho, uma versão renovada e lúdica do clássico Der Schauspieldirektor. O espetáculo conta com uma antevisão especial na FEUP já no dia 23 de maio.
O universo da ópera e os seus bastidores servem de mote para a nova produção do Estúdio de Ópera da ESMAE: “O Empresário” (Der Schauspieldirektor), de W. A. Mozart. A obra, originalmente um Singspiel que cruza dança, teatro e música, ganha agora uma nova vida através da adaptação e (re)texto de António Durães, sob a direção artística de António Salgado e direção musical de Jan Wierzba. O acompanhamento ao piano e a vasta equipa técnica envolvem diversas áreas da escola, desde a cenografia aos figurinos e design de luz.
A narrativa centra-se em Frank, um empresário de altos padrões que, confrontado com um subsídio insuficiente para uma produção em Salzburgo, se vê mergulhado numa maratona de audições. O conflito central — a luta entre a qualidade artística inquestionável e o pragmatismo necessário para viabilizar um projeto — mantém-se, segundo a organização, "extremamente atual
Embora Mozart seja a figura central, o espetáculo assume um caráter de "homenagem ao repertório mais amplo". Ao longo da peça, os candidatos que se apresentam ao "empresário" interpretam excertos célebres de outras obras emblemáticas como Cosi fan Tutte, As Bodas de Fígaro, The Best of All Possible Worlds e Saria possibile.
O público poderá ter um vislumbre desta "maratona de seleção" no Auditório da FEUP, no dia 23 de maio, com as "Cenas da Vida Operática". A produção integral sobe ao palco do Teatro Helena Sá e Costa (THSC) nos dias 5 e 6 de junho.
Frank é um empresário com altos padrões de qualidade que trabalha com a sua assistente, uma aspirante a artista, na produção de óperas e peças de teatro. Ao conseguirem um subsídio muito inferior ao solicitado para realizar uma produção em Salzburgo, inicia-se uma verdadeira maratona na seleção dos cantores. Frank, apesar dos condicionalismos, deseja montar algo de bom gosto, de inquestionável qualidade, mas a sua assistente, de modo a viabilizar a produção, só pensa em cantores e soluções alternativas. É colocado um anúncio para os testes de seleção e começam a chegar os candidatos.
Der Schauspieldirektor, K.486 é um exemplo clássico do Singspiel, um género alemão que mistura partes faladas com números musicais — algo entre teatro e ópera. A obra foi composta por Wolfgang Amadeus Mozart em tempo recorde (cerca de 17 dias) e estreou no Palácio de Schönbrunn em 1786, com libreto de Johann Gottlieb Stephanie Jr. O que torna esta peça particularmente interessante é o seu caráter meta-teatral: fala sobre o próprio mundo do espetáculo. Na sinopse que apresentas, isso aparece de forma moderna e adaptada — Frank, o empresário exigente, e a sua assistente enfrentam limitações financeiras e entram numa corrida para montar uma produção viável. O conflito entre “qualidade artística” e “pragmatismo” é central e continua bastante atual. Além da abertura, a ópera é constituída por quatro números musicais. O libreto original contém seis papéis para atores e quatro para cantores. Nesta produção do Estúdio de Ópera da ESMAE, os atores são substituídos por cantores que interpretam outras árias (de Mozart e não só) que mantém a fluidez musical e dão unidade ao espetáculo, ao mesmo tempo que homenageiam o repertório mais amplo.
António Durães
É comum dizer-se que a dupla Mozart/ Da Ponte redefiniu a ópera, redimensionou a potência da relação musico-teatral e, alguém dizia até que poderíamos bem viver só com as suas criações. Prová-lo não é tarefa demorada nem árdua. Percorram-se as partituras de Cosi fan Tutte, As Bodas de Fígaro ou D. Giovanni, com olhos e ouvidos atentos, e ao cabo de algumas páginas teremos uma resposta, provavelmente, inequívoca. Mas, também é verdade que a longa viagem da ópera foi escrita por muitas outras mãos e espíritos extraordinários, trazendo à música novas dimensões teatrais. Elaborado num contexto de Estúdio de Ópera, o programa que hoje aqui nos traz, visita algumas páginas criadas por alguns dos espíritos teatrais que moldaram a ópera tal como a conhecemos: Bernstein, Verdi, Donizetti e, claro, Mozart. Mergulhar nestes diferentes universos é indispensável para o crescimento do jovem cantor. Musica e teatro potenciam-se e oferecem o justo impulso ao jogo coletivo e à descoberta individual. Pela justeza da escrita, abre-se, a cada regresso, uma nova leitura, uma outra possibilidade de realização, um novo insuflar de vida; recitativos, árias, conjuntos e cenas são postas na mesa para dar a manusear tempos de ação, de espera, de reação, de jogo teatral e musical, entre o “eu” e os outros, arriscando novos sons, gestos e – fundamental – novas formas de olhar e pensar o escrito. Visitar estas páginas é como visitar aquele amigo que nos delicia contando sempre a mesma história de um modo diferente. Mas mais do que isso é fazer dessa história a história de cada um dos que se cruzam com ela e a fazem sua. Viva Mozart.
Mário Alves



