Com a aproximação do final do ano letivo, estão de regresso os "Excursos Hermenêuticos". No próximo dia 19 de junho, o Espaço Porta-Jazz, no Porto, será o palco de um programa artístico que une o pensamento crítico com a criação contemporânea.
O evento surge no âmbito da Unidade Curricular de Estética e Hermenêutica II, contando com a participação dos estudantes do Mestrado em Artes e Tecnologias do Som (MATS) e do Mestrado em Composição. Sob a orientação científica e artística da docente Ana Freijo, a atividade assume a tipologia de Instalação com Performance.
Nesta iniciativa, as instalações e as performances constituem o próprio princípio heurístico - um espaço de pensamento vivo onde ressoa a exegese. Entre o som e a imagem, vagueia a palavra, em busca de novas janelas hermenêuticas, configuradas através do gesto efémero.
O programa divide-se em dois momentos distintos ao longo da tarde:
A partir das 15h00: Abertura e visita às instalações;
A partir das 18h00: Início das performances.
A entrada é livre e o evento terá lugar nas instalações do Espaço Porta-Jazz, situado na Praça da República, nº 156, no Porto.
Resumo:
Com a aproximação do final do ano lectivo, regressam os excursos hermenêuticos. Desta vez, deslocamo-nos ao espaço Porta-Jazz, com um programa singular. Instalações e performances constituem o princípio heurístico — pensamento vivo onde ressoa a exegese. Entre o som e a imagem, vagueia a palavra, em busca de novas janelas hermenêuticas, configuradas através do gesto efémero.
Artistas
[Estudantes do Mestrado em Composição e do Mestrado em Artes e Tecnologias do Som da ESMAE]
Aarón Esteve Gandia
António Tomás Cunha Camacho
Diogo Miguel Alves Duarte Bento
Gil Gabriel Lopes Tomás da Silva
Hugo Filipe Paulo Ferreira
Luana Margarida Moreira Ambrósio
Marcelo da Silva Martins
Marco Fadda
Marta Leonor Ramos e Oliveira
Ricardo Jorge Costa Dourado
Simão Bragança de Assunção Rocha Ribau
SINOPSE GERAL
«Como sabes se está a chover? — Vai à janela e vê.»
Lawrence Kramer, Interpreting Music (2011)
Um motto apócrifo, atribuído a Ludwig Wittgenstein, ressoa na génese deste programa, povoado por instalações e performances oriundas da investigação artística. Essa breve fórmula inspirou Lawrence Kramer, levando-o a reconsiderar as problemáticas do significado musical à luz de um novo conceito: a «janela hermenêutica», limiar do pensamento onde o significado musical se deixa entrever. O que vos propomos? Retomar essa imagem que anima a exegese, com o intuito de procurar novas janelas hermenêuticas, configuradas através do gesto efémero.
Instalações
António Tomás Cunha Camacho
MURO DA ESPERANÇA
Numa mesa de café. Dois dedos de testa, três de conversa. Do café se arma e se desmonta, se abre a porta da possibilidade e a janela do à vontade, não se divide com o insuportável a mesa, pois não?
O que nos transmite com quem nos partilha?
Se põe e se coloca, sobre esta mesa a troca, a passagem, e a matiné da vida acompanhada em forma de mesa quadrada, redonda ou imaginada; o café, aperitivos e fúteis adornos, várias horas de tudo o que entra e finalmente pode sair, passando e passando, sem parança. O Muro da Esperança.
Biografia
Tomás Camacho (2002, Ilha da Madeira) é artista sonoro e visual. Licenciado em Música Eletrónica e Produção Musical pela ESART, frequenta atualmente o Mestrado em Artes e Tecnologias do Som na ESMAE. Os seus interesses privilegiam a cultura popular portuguesa, e a transdisciplinaridade é um denominador comum na sua prática artística. Integra o coletivo artístico Sala 1.2.7 e no presente, sobre o nome de Captãomer, dedica-se à exploração sonora e produção musical, à escultura, à colagem e à videoarte. A interligação entre eletrónica e tradição portuguesa constitui um dos pilares fundadores da sua criação artística.
Luana Margarida Moreira Ambrósio
TUNE IN
Instalação audiovisual a partir de pequenos fragmentos efémeros, que resistem e persistem, muitas vezes despercebidos no ruído visual e auditivo citadino. Para a sua elaboração, foram realizadas recolhas em espaços da cidade do Porto, atravessados e percorridos rotineiramente. Com eles, e sobre eles, foi criada uma camada extra-sensível que incide sobre a relação com esse material, revelando o modo como foi observado, absorvido e ouvido.
Biografia
Luana Ambrósio (1999, Faro) é uma compositora promissora, versátil e interessada na interseção entre música e imagem, bem como no diálogo entre tradição e contemporaneidade. Atualmente, frequenta o Mestrado em Composição na ESMAE, sob orientação de Dimitris Andrikopoulos. Participou em seminários e masterclasses com compositores de renome, como Dimitris Papageorgiou, Héctor Parra e Kaija Saariaho. Recebeu encomendas para o Prémio Jovens Músicos 2025 e o Projeto DME – O Canto das Sementes.
Entre as suas estreias recentes, destacam-se a primeira obra orquestral, Shinrin (2025), apresentada na ESMAE; Gérmen (2025), para trio, do Projeto DME, em Lisboa e Évora; a banda sonora para o filme Moonland (1926), exibida no Batalha Centro de Cinema, no Porto; e Even (2026), obra para órgão estreada em abril na Igreja da Nossa Senhora da Conceição.
Marcelo Da Silva Martins
O MILAGRE DO SÉC. XXII
Esta pequena televisão é o mais novo modelo de artista de rua. Habita simultaneamente entre o real e o digital, não há plano de existência que lhe escape. Na sua realidade, assumiu a personalidade de um buraco personificado. Quem diria, ahn? Mal ganhou consciência, sabia que queria ser cantor. Agora, como todos os seus contemporâneos, canta pelo pão digital. O karaoke satisfaz-lhe, não tem que pensar muito.
É só cantar. É só agradar. É só arrecadar.
Aproximem-se boa gente e presenciem o milagre do séc. XXII.
Biografia
1tristefarrapo; Marcelo Martins; Famalicão; um metro e qualquer coisa de altura; noventa e tal quilos; cento e quarenta arrependimentos; algumas dezenas de maldizeres; uma essência de constrangimento; um buraco ou outro; trezentas gramas de estupidez; um belo couro cabeludo; Licenciado em cinema com obsessão pelo audiovisual e pela exploração da do absurdo; quem diz que não posso escrever isto aqui?; (inserir um outro comentário);
Marta Leonor Ramos E Oliveira
SEM PÉS NEM CABEÇA
Um corpo desfigurado, refratado, fragmentado. exploro a distância entre corpo e imagem através da sua multiplicação e dispersão no espaço. entre o real e a abstração, o corpo torna-se instável – será que ainda o reconheço?
Biografia
Marta Oliveira (porto, 2002) é artista sonora e visual. licenciada em cinema e atualmente aluna do mestrado em artes e tecnologias do som, na esmae. procura o som como exercício-escuta. interessa-se por reproduzir e transformar as paisagens sonoras que a rodeiam.
Performances
Aarón Esteve Gandia
CONSECUTIO
Esta peça acusmática, integrada na série Excursos Hermenêuticos, explora a questão da narratividade na música através da construção de um discurso sonoro articulado sobre a inter-relação temporal de eventos. A obra propõe uma escuta em que os materiais sonoros não se apresentam de forma autónoma, mas se encadeiam e respondem entre si, gerando uma continuidade narrativa coerente ao longo dos seus aproximadamente sete a oito minutos de duração.
A disposição quadrafónica constitui o suporte a partir do qual o material eletroacústico é projetado e distribuído, convertendo o espaço de escuta num elemento ativo do discurso. Desta forma, a obra não só coloca uma reflexão sobre a possibilidade da narrativa musical, como a pratica no seu próprio desenvolvimento formal.
Biografia
Aarón Esteve (n. 1997, L'Alcúdia de Crespins, Valência, Espanha) iniciou os seus estudos de Composição no Conservatório de Música Joaquín Rodrigo de Valência, onde trabalhou com Voro García, Marc García Vitoria, José Luis Escrivà, Héctor Oltra e Carlos Foncuberta. Através do programa Erasmus, passou um ano a estudar na ESMAE, no Porto, sob a orientação de Telmo Marques, Dimitrios Andrikopoulos e Ângela Da Ponte. Atualmente, encontra-se a concluir o Mestrado em Composição na mesma instituição.
A sua formação inclui também a participação em festivais como o MIXTUR e o ENSEMS, onde recebeu orientação de Georges Aperghis, Agustí Charles, Joan Magrané, José Manuel López López, Luis Naón e Murilo Cacciatore.
As suas obras têm sido apresentadas em projetos como a Tournée Nacional 2023 do Plural Ensemble e o XIV Festival de Música Contemporânea SoXXI, e interpretadas em espaços como o Auditorio Nacional Reina Sofía (Madrid), os Teatros del Canal (Madrid), o Espacio Turina (Sevilha) e o Teatro Helena Sá e Costa (Porto). Foi distinguido com uma Menção Honrosa no XXXV Concurso Jóvenes Compositores da Fundação SGAE.
Diogo Miguel Alves Duarte Bento
ÁGUA VIVA
"Tinha que existir uma pintura totalmente livre da dependência da figura — o objeto — que, como a música, não ilustra coisa alguma, não conta uma história e não lança um mito. Tal pintura contenta-se em evocar os reinos incomunicáveis do espírito, onde o sonho se torna pensamento, onde o traço se torna existência."
- Michel Seuphor, in Clarice Lispector, Água Viva
Água Viva é uma performance multidisciplinar a partir do livro homónimo de Clarice Lispector. A protagonista desta obra é uma pintora que deseja, numa noite “mais longa do que a vida”, mudar de meio de expressão e criar-se escritora. A recusa, ideia aí aflorada, será explorada aqui quer do ponto de vista narrativo, quer do ponto de vista temporal, através do “frágil fio condutor” do pensar da personagem — um fluxo de consciência em bruto, de gestos mínimos de intensidade.
A descoberta do (i)mundo, com o susto de quem vê o informe tomar forma, será partilhada por músicos e público. Esta performance não exige, pois, mera assistência: o público será também convidado a participar nela.
Biografia
Diogo Bento (2001, Mirandela) é um jovem compositor português que frequenta o Mestrado em Composição na ESMAE. Na sua atividade, interessa-se por vários domínios, destacando-se a escrita para pequenos e grandes ensembles, a composição eletroacústica e a prática interdisciplinar — em particular música, literatura, gesto e movimento.
Participou em projetos como o “Venham mais 300”, da Casa da Música, compondo uma obra para orquestra juvenil em comemoração dos 50 anos do 25 de abril. Frequentou ainda seminários e teve aulas ocasionais com compositores como António Pinho Vargas, Carlos Guedes, Dimitri Papageorgiou e Maurizio Azzan.
Para além dos estudos superiores de composição, estuda ainda piano jazz com o professor Hugo Raro Andrade e integra o Coral de Letras da Universidade do Porto.
Gil Gabriel Lopes Tomás Da Silva / Hugo Filipe Paulo Ferreira
ESFANES: OPUS 2
Recorrendo ao seu projeto partilhado, ESFANES, Hugo Ferreira e Gil Silva apresentam as suas mais recentes experiências composicionais.
Hugo foca-se principalmente em questões de complexidade rítmica através do uso extensivo de subdivisões menos familiares para a banda, mas nunca deixando de parte a sensação de “groove”. Simultaneamente, procura que estas subdivisões sejam o pano de fundo para momentos de improvisação.
O foco de Gil encontra-se nas melodias e na escrita heterofónica. Procura fazer com que várias melodias angulares coexistam em simultâneo. Articula-as com momentos heterofónicos onde o carácter melódico fica mais turvo, para criar um espaço onde quase não há homorritmia, onde a sensação de pulso se dilui e a aceleração e sobreposição das melodias é temporariamente percecionada como textura.
As abordagens de ambos complementam-se e partilham a vontade de se afastar da composição convencional para este tipo de ensembles.
Nesta breve apresentação, serão ouvidas as primeiras obras que concluíram desde o ingresso no mestrado, obras estas sempre sujeitas a alterações, pois ESFANES assume, nesta fase, um carácter laboratorial.
Biografias
Gil Silva (Valado dos Frades) iniciou os seus estudos musicais por volta dos 7 anos. Progressivamente, começou a integrar bandas filarmónicas e orquestras ligeiras locais a tocar trombone, e lentamente nele emergiu uma paixão profunda pela música, que se viria a manifestar mais intensamente no jazz.
Depois de concluir o ensino básico de música, ingressou no curso profissional na área da música clássica, na Escola Profissional de Música de Espinho.
Determinado a mergulhar no jazz, ingressou então no curso de jazz da ESMAE,
em 2016, onde concluiu a licenciatura em 2020.
Com uma paixão de longa data pelo saxofone tenor, decide começar a explorar o instrumento, em 2020, e é hoje o seu instrumento principal, depois de um gradual processo de transição.
Permanece radicado no Porto e está inserido na crescente cena do jazz e da música improvisada da cidade. É membro da Porta-Jazz, associação com uma programação mensal fervilhante, e integra vários projetos de músicos criadores da cidade do Porto, mantendo uma alta atividade como sideman. Co-lidera também projetos para os quais contribui criativamente e composicionalmente.
Frequenta atualmente o Mestrado em Composição na ESMAE (1º ano). Procura continuamente desenvolver a sua voz como artista, músico, improvisador e compositor. De momento, as suas áreas de principal foco são o jazz, a música improvisada e seus derivados, mas mantem-se aberto à atividade e a contaminações de outros estilos e áreas artísticas.
Hugo Ferreira (Coimbra, 19 de agosto de 1998) é guitarrista, compositor e produtor. Iniciou o seu percurso musical de forma autodidata aos 11 anos e, em 2018, ingressou na ESMAE, onde concluiu a Licenciatura em Guitarra Jazz, em 2021. No final da licenciatura, apresentou o projeto Compendium, que se apresentou em várias salas do Porto e de Coimbra, e viria a ser distinguido com menção honrosa no Concurso Internacional de Jazz da Universidade de Aveiro.
Ao longo do seu percurso, tem afirmado uma linguagem própria, como líder e sideman, destacando-se projetos como GODUA e ESFANES, ambos com um disco editado, bem como colaborações com a Orquestra de Jazz de Matosinhos e com a associação Porta-Jazz, da qual é participante ativo. Paralelamente à atividade artística, desenvolve trabalho nas áreas da gravação, produção, mistura e masterização, tendo cofundado, em 2024, a editora independente MOCHO RECORDS.
Atualmente, frequenta o Mestrado em Composição na ESMAE, dedicando-se ao desenvolvimento de novo material composicional para os projetos ESFANES, GODUA e outras formações.
Marco Fadda
GOLDILOCKS ZONES
Esta obra toma como ponto de partida o conceito de soundscape. Pretende explorar e compreender quais os elementos que influenciam uma soundscape composition, o que determina a sua imersividade a nível intuitivo e até que ponto é possível criar paisagens sonoras sintéticas e/ou surreais sem que estas percam a sua identidade enquanto soundscapes. O objetivo, portanto, é criar um ambiente que pareça estranho, mas simultaneamente credível.
Biografia
Marco Fadda é músico e sound designer. Estudou música eletrónica em Cagliari e frequentou o curso de música para cinema no Centro Sperimentale di Cinematografia, em Roma. Ao longo do seu percurso académico, interessou-se também por áreas como scoring e o desenvolvimento de VSTs, tendo realizado algumas experiências nesses campos. Atualmente, frequenta o Mestrado em Composição na ESMAE, no Porto, enquanto procura perceber que rumo artístico gostaria de seguir.
Ricardo Jorge Costa Dourado
ANSEIO POR SER
Obra de teatro musical concebida como uma ária para voz e quinteto de cordas, a partir de um libreto original. Apresenta uma reinterpretação do personagem Pinóquio, aqui representado por uma marionete. Toma como temática principal a expressão dos desejos e fantasias do personagem, que almeja tornar-se, um dia, um menino de verdade.
Esta obra explora a integração de diferentes formas artísticas, nomeadamente a arquitetura, as artes plásticas, a literatura e a música.
Biografia
Ricardo Dourado iniciou os seus estudos musicais em 2016, na Escola Profissional Artística do Alto Minho (ARTEAM), no Curso de Instrumentista de Cordas e Teclas, na classe de contrabaixo de Jaime Alvarez. Com a Orquestra Sinfónica da ARTEAM, teve a oportunidade de trabalhar com músicos e maestros de várias nacionalidades, entre os quais William Sabatier e Ernst Schelle, bem como figuras do panorama musical português, como David Fiúza e Sérgio Carolino. Foi também durante esta primeira fase que, orientado por José Tiago Batista, explorou o ramo da composição musical.
Parte em 2019 para Londres, Inglaterra, após ter sido aceite na Licenciatura em Composição da London College of Music. Sob orientação de Litha Eftymiou, desenvolve diversas competências enquanto compositor e artista, tendo a oportunidade de levar a palco várias obras originais.
Em 2025, após regressar a Portugal, ingressa no Mestrado em Composição na ESMAE.
Simão Bragança De Assunção Rocha Ribau
ALERTA
Esta obra explora a potencialidade do timbre enquanto ferramenta composicional. Aqui, o timbre transforma-se em meio de tensão e resolução que afeta o desenvolvimento musical, ao mesmo tempo que possibilita a manipulação sonora dos instrumentos, tornando-os, nalguns momentos, irreconhecíveis, o que põe em causa as expectativas do ouvinte.
Técnicas de produção e manipulação de áudio — como o uso de compressão, equalização e outros efeitos — são aqui utilizadas, proporcionando uma escuta ampliada e autónoma.
Biografia
Simão Bragança Ribau (n. 2000, Porto) iniciou os seus estudos musicais no Curso de Música Silva Monteiro, onde estudou piano clássico até aos 14 anos. Nessa altura, começou a tocar guitarra jazz e, em 2021, ingressou na licenciatura em Produção e Tecnologias da Música na ESMAE
Já gravou nos Estúdios Arda e nos Hansa Studios, em Berlim, tendo trabalhado neste último durante sete meses, em 2025. Teve a oportunidade de trabalhar com artistas de diferentes níveis e de diversos géneros musicais.
Atualmente, frequenta o Mestrado em Composição na ESMAE, sob a orientação de Telmo Marques.
imagem de thumb: @Nicolas Solerieu


