Olhar, Pensar, Sentir, Escutar | Jornadas de Práticas de Investigação em Artes: Made in ESMAE
Durante os próximos dias 15 e 16 de janeiro (quinta e sexta-feira), o Centro de Cultura do Politécnico do Porto acolhe a 4ª edição do encontro anual de estudantes e investigadores em artes, promovido pela ESMAE, Centro de Cultura P. Porto e pelo centro de investigação CESEM (Centro de Estudos em Música).
As Jornadas de Práticas de Investigação em Artes consolidam-se como um espaço de debate e descoberta, promovendo a interdisciplinaridade e estimulando a criatividade e inovação no seio da comunidade artística e académica do Porto. Este ano, as Jornadas apresentam-se sob o tema "Made in ESMAE" com a premissa de dar espaço a compositores e compositoras que se formaram na ESMAE, para partilhar o seu percurso, o seu trabalho artístico e os seus projetos de investigação.
A entrada é livre.
Organização: ESMAE, Centro de Cultura P. Porto e Centro de Investigação CESEM (Centro de Estudos em Música)
Coordenação: Dimitrios Andrikopoulos
Participantes (ordem alfabética):
Ângela da Ponte; Carlos Azevedo; Carlos Guedes; Daniel Moreira; David Miguel; Filipe Lopes; Igor Silva; José Alberto Gomes; Luís Neto; Manuel Brásio; Nuno Costa; Nuno Lobo; Nuno Peixoto; Olívia Silva; Solange Azevedo; Teresa Gentil.
Local: Centro de Cultura do P. PORTO (Praça do Marquês de Pombal 94, 4000-391 Porto)
Programa:
15 de janeiro, Quinta-feira
09h30 - 10h15: Carlos Guedes - 'Compor na era da Inteligência Artificial Generativa'
10h15 - 11h00: Teresa Gentil - ‘Vencer o dia’, ‘uma conversa infinita’ e ‘Sons de uma revolução’
11h00 - 11h30: Coffee Break
11h30 - 12h15: Manuel Brásio - Habitando Ecologias da Demora - a suspensão da gaguez como método
12h15 - 13h00: Nuno Costa - Uma sequência de escuro, com tributo e comunidade
13h00 - 14h30: Lunch Break
14h30 - 15h15: Luís Neto - Da série de harmónicos ao estilo: escolha de alturas na prática composicional
15h15 - 16h00: Nuno Peixoto - Da Estrutura à Matéria — Diálogos entre Formalização e Intertextualidade em LLOCK e Petram Morphosis
16h00-16h30 Coffee Break
16h30 - 17h15: Nuno Lobo - Utilização de Mukthāys como ferramenta composicional
17h15 - 18h00: David Miguel - O Mestre Invisível
16 de janeiro, Sexta-feira
09h30-10h15: Ângela da Ponte - Ad aeternum
10h15-11h00: Carlos Azevedo -“Brexit” – Quarteto de Cordas
11h00 - 11h30: Coffee Break
11h30 - 12h15: Solange Azevedo - A procura por um método — processos criativos entre música e pintura
12h15 - 13h00: Daniel Moreira - Entre a partitura e o estúdio: a gravação como prática composicional colaborativa
13h00 - 14h30: Lunch Break
14h30 - 15h15: Igor Silva - Sistemas e processos para composição e improvisação multimédia
15h15 - 16h00: Olívia Silva - O timbre como parâmetro estrutural na análise, composição e ensino
16h00 - 16h30: Coffee Break
16h30 - 17h15: Filipe Lopes - A memória não é uma fita
17h15 - 18h00: José Alberto Gomes - Experiências Sonoras em Criação e Investigação Artística
Carlos Guedes
Compor na era da Inteligência Artificial Generativa
O desenvolvimento galopante de tecnologia musical desde os anos 60, exacerbado exponencialmente a partir dos anos 90 do século passado, provocou um aumento considerável na produção musical a todos os níveis. Este aumento na produção e distribuição tornou a música ubíqua, facilmente acessível, e em qualquer coisa que hoje estamos habituados a consumir gratuitamente, trazendo enormes problemas de retorno financeiro para todos os artistas que a produzem. Há uns cinco anos atrás, as coisas complicaram-se um pouco mais: o aparecimento de sistemas capazes de gerar música a partir de simples comandos de texto em modelos de linguagem de grande porte (LLMs), como o Suno ou o Udio, vem tornar a criação musical em qualquer coisa que está literalmente ao alcance de todos, com ou sem educação ou experiência musical, através de um simples comando verbal. A fiabilidade destes sistemas é impressionante tornando cada mais difícil a distinção entre o que é criado por humanos ou por máquinas. Este novo estado das coisas faz-nos questionar: “Compor porquê, para quê, e para quem?” Esta intervenção pretende refletir um pouco sobre esta situação e tentar perceber se haverá algum futuro para todos aqueles que imaginam fazer da composição uma forma de vida.
Teresa Gentil
‘Vencer o dia’, ‘uma conversa infinita’ e ‘Sons de uma revolução’
Criação musical em contextos comunitários
Partilharei, nesta apresentação, alguns dos projetos musicais que desenvolvi com grupos de idosos, crianças e jovens, dando especial ênfase às criações operáticas: ‘Vencer o dia’, desenvolvida com a Associação de Saúde Mental do Algarve (Asmal); ‘Uma conversa infinita’, composta com e para os alunos da Escola de Música de Leça da Palmeira; ‘Sons de uma Revolução’, com a orquestra Gulbenkian e o Conservatório Artallis. Estes dois projetos foram concebidos para os grupos em questão e realizados através de processos colaborativos, adaptados às especificidades e vontades musicais e dramatúrgicas dos/as intervenientes.
Manuel Brásio
Habitando Ecologias da Demora - a suspensão da gaguez como método
Esta comunicação propõe a gaguez como método de investigação artística e composicional, entendida como prática temporal que reconfigura escuta, presença e relação. A partir da experiência da fala gaguejada, discuto a hesitação como gesto político e pedagógico que desloca a fluência enquanto norma de inteligibilidade e competência.
Queria falar-vos do que tenho feito, mas já que falar é o primeiro ponto. Vamos parar por aí. Ando a investigar o que tem este parar, este soluçar, esta suspensão a dizer sobre mim e sobre aquilo que faço.
Nuno Costa
Uma sequência de escuro, com tributo e comunidade.
Esta apresentação é uma simples partilha de percurso, através da música, entendida como processo em transformação, com algumas ideias, dúvidas e complexidades/simplicidades, que poderão ajudar a iluminar outros ângulos da experiência de cada um.
Luís Neto
Da série de harmónicos ao estilo: escolha de alturas na prática composicional
Esta comunicação explora como o mesmo método de escolhas de alturas pode conduzir a resultados estilísticos diversos e vice-versa: como as decisões estéticas podem influenciar a técnica de alturas. O estudo é feito a partir de exemplos das obras de Luís Neto da Costa usando técnicas com a série de harmónicos.
Nuno Peixoto
Da Estrutura à Matéria — Diálogos entre Formalização e Intertextualidade em LLOCK e Petram Morphosis
Esta apresentação aborda duas das minhas obras para duo de guitarras, LLOCK (2013) e Petram Morphosis (2023), peças que, apesar de separadas por uma década, mantêm entre si um diálogo estreito. A sessão propõe uma reflexão sobre diferentes perspetivas de formalização musical, explorando a relação entre estrutura e matéria sonora, bem como os diálogos intertextuais que atravessam ambas as obras. Partindo de procedimentos formais distintos, apresento a forma como a organização estrutural condiciona, transforma e é transformada pela materialidade instrumental, evidenciando continuidades e deslocamentos no meu pensamento composicional ao longo dos últimos anos.
Nuno Lobo
Utilização de Mukthāys como ferramenta composicional
A partir da tradição rítmica da música karnática, esta apresentação explora os mukthāys enquanto estruturas rítmicas e ferramentas composicionais no meu trabalho.
David Miguel
O Mestre Invisível
O Mestre Invisível é uma palestra sobre percurso mas sobretudo sobre influência. Partindo da minha formação em Composição Musical e do caminho que me trouxe até à investigação académica em torno do Heavy Metal e da Música Clássica, proponho uma reflexão sobre momentos, acontecimentos e circunstâncias que moldam uma linguagem artística muito para além do ensino formal. Mais do que uma narrativa linear de carreira, trata-se de um convite a escutar aquilo que nos forma sem pedir licença.
Ângela da Ponte
Ad aeternum
Ad aeternum é uma obra eletroacústica para suporte fixo em oito canais, integrada no ciclo Ensaios Sobre Cantos. Este conjunto de peças propõe uma investigação artística sobre a reinterpretação e recontextualização de cantos tradicionais e rituais provenientes da minha terra natal, os Açores, para o domínio da música eletroacústica contemporânea.
A obra tem como principal material sonoro dois cantos para o dia 1 de Novembro, associados à memória de entes queridos já falecidos. Estes cantos, profundamente enraizados numa prática comunitária de carácter ritual e religioso, apresentam vozes de forte carga expressiva, marcadas pelo lamento e devoção. A intensidade emocional destes registos vocais constitui o eixo estrutural da peça, num conflito entre o divino e humano, sustentando assim uma narrativa longa e dramática, na qual se sucedem diferentes paisagens sonoras e estados afetivos.
No contexto da música eletroacústica, Ad aeternum propõe uma reflexão sobre o lugar do sagrado e do ritual numa linguagem sonora mediada pela tecnologia. Ao deslocar estes cantos do seu contexto original para um espaço de escuta acusmática, a peça questiona os limites entre memória, ritual e materialidade sonora, explorando a tensão entre o carácter íntimo e comunitário do canto ritual e a sua transformação através de processos eletroacústicos.
Desta forma, a peça não se limita a uma abordagem documental ou etnográfica, mas procura antes ativar uma escuta expandida destes cânticos religiosos, onde a manipulação sonora, a espacialização e a construção formal contribuem para uma experiência imersiva.
Carlos Azevedo
“Brexit” – Quarteto de Cordas
Economia de meios como processo de composição.
A metáfora musical.
Solange Azevedo
A procura por um método — processos criativos entre música e pintura
Esta apresentação aborda possíveis relações entre música e pintura, através de estratégias implementadas e técnicas desenvolvidas ao longo do processo criativo em diferentes obras. Tem como ponto de partida trabalhos realizados durante o Mestrado em Composição (2017– 2019), culminando na residência artística do projeto InOvar as Letras (2025), onde música e pintura foram criadas paralelamente.
Daniel Moreira
Entre a partitura e o estúdio: a gravação como prática composicional colaborativa
O que significa, para um compositor, gravar um disco com música sua? Deve encarar a gravação como similar a uma performance ao vivo — um mero registo desta — ou como um produto artístico autónomo? E que tipo de relação é que estabelece com os intérpretes e com os técnicos de som?
Nesta apresentação, exploro estas questões de investigação em relação a um projeto colaborativo de gravação de um disco em que participei recentemente. Produzido pelo Coletivo Caleidoscópio — que integra três compositores, quatro intérpretes e três técnicos de som — o álbum intitula-se Vórtice: para o fim de um tempo e contém música para piano, sintetizadores, clarinete, violino, violoncelo e eletrónica. Através da análise de vários exemplos com música de minha autoria, apresento a minha visão sobre a gravação como um espaço autónomo de criação colaborativa, mostrando como esta perspetiva se apoia na teoria de alguns autores sobre o impacto da reprodutibilidade técnica na noção de obra musical (Arbo 2014) e como colhe inspiração e influência de certas práticas associadas ao rock e à música de cinema.
Igor C Silva
Sistemas e processos para composição e improvisação multimédia
Esta apresentação explora diferentes obras de Igor C. Silva em diversos contextos performativos e improvisatórios, articulando a composição instrumental com a tecnologia.
Olívia Silva
O timbre como parâmetro estrutural na análise, composição e ensino.
O timbre é simultaneamente um dos aspetos mais determinantes da experiência musical e um dos mais difíceis de fixar em discurso: impõe-se à escuta, mas resiste à descrição e à notação. Partindo da sua natureza multidimensional, articulam-se modos de o tornar analisável e mostra-se as formas em que o timbre pode operar como um processo composicional. A discussão culmina no desafio de transpor estes conceitos para a composição e para o ensino, exigindo literacia de escuta, vocabulário partilhável e práticas criativas centradas no timbre.
Filipe Lopes
A memória não é uma fita
O interesse pelo passado não anula o papel do presente. O presente é, por assim dizer, o palco da memória. A composição musical é um exercício de interpretação do real, do presente, do agora, mas, também, do passado lembrado, do passado presente, dos fantasmas que não desapareceram e que sussurram na composição. Há sons remotos e perfeitos, ao longe, num espectro nebuloso. Sentem-se numa aparição bruta, lutando para vir à tona em linhas materiais, em sons dentro das frequências audíveis, pela força da criação. Há coisas que foram deuses, que já não são, e mesmo assim não compreendemos a sua presença vigilante. A memória é uma força de presença, característica das coisas tangíveis, no fazer composicional.
José Alberto Gomes
Experiências Sonoras em Criação e Investigação Artística
Nesta apresentação, José Alberto Gomes reflete sobre o seu percurso artístico e académico, explorando como a criação sonora, a tecnologia e a investigação se entrelaçam na sua prática. A partir de projetos que cruzam composição, paisagens sonoras e novos media, propõe uma leitura crítica das metodologias de investigação em artes enquanto processos híbridos de pensamento, escuta e experimentação. São abordadas temáticas como hauntology, arte duracional e post-humanismo, evidenciando o interesse em explorar a memória, o tempo prolongado e as possibilidades da experiência artística para além do humano.



