"De repente, algo aparece. Por exemplo, uma porta abre-se e uma borboleta passa batendo as asas. Basta este nada. E já o pensamento experimenta o perigo." A premissa de Didi-Huberman serve de mote para a instalação "Deambulação das Falenas", que estará patente nos dias 21 e 22 de janeiro, no espaço Espaço AL 859.
O projeto nasce no âmbito da Unidade Curricular de Estéticas do Ouvir, do Mestrado em Artes e Tecnologias do Som (MATS), unindo estudantes deste curso e do Mestrado em Composição (MC) numa exploração profunda sobre a perceção e o pensamento.
O projeto conta com a orientação científica e artística de Ana Freijo, Bruno Pereira, Gustavo Costa e Mário Azevedo. A organização e o apoio técnico estão a cargo de Sann Gusmão e Zeh Antunes.
Datas:
21 de janeiro: 17h00 às 20h00
22 de janeiro: 14h00 às 20h00
Deambulação das Falenas
"De repente, algo aparece. Por exemplo, uma porta abre-se e uma borboleta passa batendo as asas. Basta este nada. E já o pensamento experimenta o perigo. […]"
Didi-Huberman, Falenas
A partir da inquirição estética de autores como Walter Benjamin, Aby Warburg e Didi-Huberman — com especial ênfase no pensamento que despertam as imagens animais da serpente e da borboleta —, concebemos uma instalação sonoro-visual, enquanto dispositivo pedagógico-artístico de natureza poético-filosófica. A instalação é-será um espaço de metamorfose, instabilidade e multiplicidade, onde o processo pedagógico ali engendrado não transmite, mas incita, não prescreve, mas desperta, não fixa, mas põe em movimento. O que propomos é, pois, uma forma de pensamento espacial e temporal em formação, que exige de nós uma plasticidade perceptiva equivalente. Imaginemos a escuta e a visão, em simultâneo, como um acto cognitivo, uma práxis comunitária e um ritual de transformação.
ARTISTAS
[Estudantes do Mestrado em Artes e Tecnologias do Som e do Mestrado em Composição da ESMAE]
António Tomás Cunha Camacho
Diogo José Vieira Nóbrega
João Alves Costa Veludo
João Pedro Nunes de Sousa Pereira
José Joaquim Santos Ribeiro
Luís António Castro Morais Pinto Pereira
Marcelo da Silva Martins
Marta Leonor Ramos e Oliveira
Miguel Sá Marques de Freitas
Ricardo Jorge Gomes Martins
Veslemoy Rustad Holseter

António Tomás Cunha Camacho
Presença
Um postal de vários postais. Uma colagem de postais antigos e novos, físicos e digitais, com presença datada de até três séculos (XIX-XXI). Um pós-postal de uma entre-tradição imaginária madeirense, como exercício de liberdade não-matéria, a partir de um conjunto de postais que poderiam ser encontrados em qualquer loja de souvenirs.
Ao contrário do que é habitual, estes postais não procuram representar a realidade, mas criam e recriam um estado de consciência imaginário, brincando com a expectativa do estrangeiro, sobre as suas memórias e recordações.
Acompanhado, este postal carrega consigo mais dois elementos: um poema de tempo, que dá nome ao postal, e uma composição sonora, colagem feita de dois elementos esticados temporalmente – uma conversa malandra com o Mário Azevedo e uma canção do género Charamba, tradicional das ilhas do Porto Santo e Madeira.
Biografia
Tomás Camacho (2002, Ilha da Madeira) é artista sonoro e visual. Licenciado em Música Eletrónica e Produção Musical pela ESART, frequenta atualmente o Mestrado em Artes e Tecnologias do Som na ESMAE. Os seus interesses privilegiam a cultura popular portuguesa e a transdisciplinaridade é um denominador comum na sua prática artística. Integra o coletivo artístico Sala 1.2.7 e no presente, sobre o nome de Captãomer, dedica-se à exploração sonora e criação/produção musical, à escultura, à colagem e à videoarte. A interligação entre eletrónica e tradição portuguesa constitui um dos pilares fundadores da sua criação artística.
Diogo José Vieira Nóbrega
Caixa de Rothko
Inspirada na Capela Rothko, esta obra foi concebida para proporcionar uma experiência íntima e solitária. O participante deve colocar os auscultadores e interagir com uma caixa repleta de botões, o que revelará uma tensão entre expectativa e ausência.
Vivida apenas uma vez, e em silêncio absoluto, esta caixa não oferece respostas nem estímulos externos. O silêncio ocupa todo o espaço da experiência. Tal como na pintura de Rothko, o essencial não está no objeto, mas no que acontece dentro de quem o experiencia.
Biografia
Diogo Nóbrega é um artista multimédia. Desde cedo se interessou pela música e pelo som, explorando diferentes instrumentos e formas de ouvir e trabalhar o áudio.
É licenciado em Multimédia e Mestrando em Artes e Tecnologias do Som. É cofundador do coletivo Arte Leiga. O seu trabalho desenvolve-se entre a performance eletrónica e a experimentação audiovisual, cruzando som e imagem em tempo real. Trabalha com síntese sonora, gravações, eletrónica e dispositivos que constrói ou adapta, como sintetizadores e sistemas próprios.
Nas suas performances e projetos, procura criar som e visuais minimalistas. Gosta de explorar sistemas analógicos e a forma como o som e a imagem podem reagir um ao outro, criando ligações diretas entre o que se ouve e o que se vê.
Tem apresentado o seu trabalho em contextos de concerto, instalação e colaboração com outros artistas, mantendo uma prática centrada na experimentação e improvisação.
João Alves Costa Veludo
O Espaço Entre
Subi o monte, olhei a ponte
e vi-te longe.
Subi o monte, olhei a ponte
e vi-me morto,
Sem desgosto, perdi o posto
ou foi um sonho?
Ou foi um sonho...
Aqui só vive a ideia que sinto
uma sombra neutra num vermelho tinto
Bailarina dança, ao som deste ritmo
Enquanto avança, em forma de símbolo
Biografia
Nascido em 2000, no Porto, João Veludo é produtor musical, sound designer, DJ e artista sonoro. Iniciou a sua formação em Produção Musical na Restart Porto, licenciou-se em Música Eletrónica e Produção Musical na ESART, em Castelo Branco, e atualmente frequenta o Mestrado em Artes e Tecnologias do Som na ESMAE, no Porto. A sua trajetória artística caracteriza-se pela versatilidade, recorrendo a heterónimos como forma de explorar diferentes expressões artísticas, linguagens e imaginários sonoros. Fora do contexto académico, fundou em 2021 a editora independente Bluvel Records. Como criador, lançou o seu primeiro álbum Partir Aqui em 2020, sob o alter ego Cupra. Em 2021, deu início ao projeto Balu. Sob este nome editou os álbuns In the Jungle e UnderVelvet, ambos lançados pela Bluvel. Em 2024, cria o heterónimo Wiseloop, um projeto que aprofunda a sua vertente mais eletrónica e tecnológica, destacando-se o trabalho Embryo EP editado em vinil numa cópia única. Integra ainda os coletivos artísticos Sala 1.2.7 e Olho Lírico e desenvolve trabalhos como compositor e sound designer. Atua também na produção e curadoria de eventos, destacando-se o festival Quadrado do Passaporte, um evento multidisciplinar com concertos e exposições coletivas envolvendo mais de 20 artistas emergentes. Enquanto performer, seja em lives ou dj sets, apresentou-se em cidades como Porto, Lisboa, Penafiel, Caldas da Rainha e Castelo Branco e participou num ensemble de música eletrónica em festivais como Serralves em Festa.
João Pedro Nunes de Sousa Pereira
Contaminação
No Kōdō, a cerimónia japonesa do incenso, existem duas componentes essenciais: o Monkō (ouvir o incenso) e o Kumikō (a atividade social resultante da escuta partilhada do incenso). Nesta cerimónia, faz-se um apelo a uma forma de audição simbólica, mediada pelo aroma.
Inspirada nesse ritual, surge Contaminação, onde o incenso, enquanto forma de medir o tempo, suspende o tique-taque do relógio. Somos aqui convidados a pensar o tempo como um aroma que preenche a sala, desfrutado por todos, como uma presença que apela à nossa atenção.
Acompanhado por uma peça musical, de linhas ténues que inspiram à lentidão, esta instalação convida elementos externos a habitar os espaços que abre, do mesmo modo que preenche a sala com o seu aroma. Surge, então, uma presença que contamina, da mesma forma que é contaminada, abraçando e sendo abraçada pelos objetos que habitam o espaço.
Biografia
Nascido em Coimbra, em 2003, João Pereira é produtor musical, engenheiro de áudio, compositor e DJ. Licenciado em Música Eletrónica e Produção Musical pela ESART-IPCB, frequenta atualmente o Mestrado em Artes e Tecnologias do Som na ESMAE. Integra os coletivos multidisciplinares Sala 1.2.7 e Æ.
Sob o pseudónimo Adler Jack, publica numerosos trabalhos discográficos nas principais plataformas digitais, destacando-se os álbuns Dez anos depois e Flor da Pele. Ao longo de uma década de criação musical, o seu trabalho tem sido divulgado e reconhecido por diversos meios de comunicação, entre os quais Expresso/BLITZ, Rimas e Batidas, Espalha-Factos, New in Coimbra, Playback, Mindies e Underbounds.
Recentemente, foi convidado por Henrique Amaro a integrar o disco Novos Talentos FNAC de 2025, tendo ainda figurado nas listas de melhores discos nacionais do ano da BLITZ e da Mindies. A sua música já foi transmitida em espaços radiofónicos como a Rádio Universidade de Coimbra e Antena 3, e apresentou-se ao vivo em espaços como o Musicbox e no festival Serralves em Festa.
José Joaquim Santos Ribeiro
Afeto
Criar laços de proximidade, fazer sentir alguém querido, desejado de modo são – esse é, para nós, o sentido de afeto. Idealiza-se como poderá ser esse encontro e surge, então, a mesa.
Na origem há um propósito: dar de si, chegar aos outros e os outros sentirem-se alvo do trabalho. Algo foi feito para eles – uma simples regueifa doce.
Em cada grama pesada de fermento, em cada ovo partido e mexido, há uma intenção que não se reduz a um produto retirado do forno. Nas mãos do obreiro, ainda antes da degustação, há o cuidado para que seja aprazível a textura, o sabor e o aroma. Na sua experiência, carrega-se o peso de uma tradição secular, recebida e procurada, numa busca incessante de fazer cada vez melhor.
À volta da mesa se partilha a vida. Há sempre uma primeira e uma “Última Ceia”… mas tudo culminará no “Eterno Banquete”.
Biografia
José Joaquim Ribeiro, nasceu em 1988 e é natural de Lobão, Santa Maria da Feira. Além de ser padre e pároco em 3 paróquias na Diocese do Porto desde 2015, é licenciado em Composição pela ESMAE e, atualmente, frequenta o mestrado em Composição na mesma instituição. Estudou composição com Pedro Santos, Carlos Azevedo e Eugénio Amorim.
No Seminário estudou órgão e harmonia com António Mário Costa. Fez o Curso Nacional de Música Litúrgica nas suas três vertentes: direção, órgão e salmista.
Além de Música Sacra e litúrgica (original e arranjos), também escreve música profana, sobretudo para banda filarmónica, sendo autor de diversas marchas de rua.
Destaca-se, ainda, a investigação e recolha, embora de modo informal, no âmbito da música tradicional portuguesa, dedicando-se também à etnografia.
Luís António Castro Morais Pinto Pereira
Desfocado
O raio de luz, sem desvio, segue o seu trajeto. Atinge o seu fim e, nesse instante, recomeça sem saber porquê. De forma incerta, num ser acerta, e deixa a sua cor.
O olho, no seu jeito de olhar, da cor tece a imagem. A mente, no seu jeito de ver, na imagem encontra um mundo. A alma, desajeitada, nesse mundo procura a luz.
Biografia
Luís Pereira, nascido em 2000, licenciou-se em Engenharia Informática pela Universidade de Aveiro antes de frequentar o Mestrado em Artes e Tecnologias do Som na ESMAE. Tem interesse particular na composição/produção musical.
Marcelo da Silva Martins
Não Esperes Demasiado Desta Porta
De que serve uma porta senão para dividir? Uma limitação é um convite à invenção.
Uma provocação a Schrödinger: e se ouvíssemos um miar vindo de dentro da caixa? Seria o suficiente para assumir certezas? Ou ta-da! Ainda mais confusão.
Uma ridicularização da perceção do objeto. Quem diz que o "sensorial" para lá de uma porta que nos é habitual se manterá fixo? Será a verdade constante? Para quê esta figura que protege ou impede de entrar e sair? Desperdiçar signos no ridículo, e ver se passa mais depressa.
Biografia
1tristefarrapo, um calhamaço de pele e ossos. Estudante de cinema com especialização em design de som. Procura desperdiçar tempo. O máximo possível. Daí tantas frases isoladas. Leiam as pausas todas para máximo efeito.
Marta Leonor Ramos e Oliveira
Ser Corpo
Um desabafo sobre o silêncio, que parte da reapropriação e colagem de excertos de diferentes livros.
Uma reflexão sobre o silêncio e o vazio. Tal como o silêncio deixa de ser ausência para se tornar excesso, o espaço vazio afirma-se como totalidade, e não como nada.
Biografia
Marta Oliveira licenciou-se em cinema na UBI. Atualmente, é aluna do Mestrado em Artes e Tecnologias do Som na ESMAE. Procura o som como exercício de escuta. Interessa-se por reproduzir e transformar as paisagens sonoras que a rodeiam.
Miguel Sá Marques de Freitas
Atrito
Instalação que explora o sentimento de ansiedade e pressão emocional. Aqui o espelho deixa de ser apenas o reflexo e torna-se num momento de fricção, entre o interior e o exterior.
Biografia
Miguel ou mizt, nascido em 2002, é produtor musical. Licenciado em Educação Musical pela ESE, frequenta atualmente o Mestrado em Artes e Tecnologias do Som na ESMAE. É apenas um rapaz calmo de Guifões.
Ricardo Jorge Gomes Martins
Mantra em F
Através da repetição e da escuta atenta, esta obra sonora é concebida como uma interrogação contínua acerca do que é a arte. Mais do que desencadear uma resposta, o mantra propicia uma experiência, interrogativa, em que o som se revela na atenção de quem escuta.
Mantra em F propõe um espaço de descoberta, onde pequenos apontamentos sonoros emergem como convites à perceção individual.
Biografia
Ricardo Martins ......... um mero desconhecido!
Veslemøy Rustad Holseter
Hexorcise
‘Beloved - Possessed - Damned - Blessed.
Within the Deep green shades of forrest,
To the Deep-blue sounds of the Sea
We Hexorcise our right to autonomy’ -
Obra audiovisual ao vivo concebida como uma mitologia moderna de magia contemporânea. Lugar onde o natural, o pessoal, o político, o vulnerável e o físico — com laços ao passado, presente e futuro — se fundem na forma de um ritual recorrente.
A partir dos escritos de Akwugo Emejelu, Giorgio Agamben, Silvia Federici, Catherine Mills, Michel Foucault e Lisa Duggan, explora e desvenda como as estruturas de poder e biopolítica sancionadas pelo Estado operam na sociedade contemporânea de hoje, com um apelo ao autoempoderamento por meio de alegorias de trabalho de cuidado, colaboração e comunidade. A luta do corpo rebelde, os tons de opressão, controlo ou autonomia, revestidos por frases como «para o bem maior» e «a proteção do coletivo», são desconstruídos numa paisagem sonora inspirada na cantora folk norueguesa, Forrest-Finn, e na tocadora de kantele, Sinikka Langeland.
«Hexorcise» encobre e solda formas sonoras de contrapontos críticos às estruturas de poder patriarcais e tecnocráticas contemporâneas. Funciona não como um renascimento mitológico, mas como uma estrutura especulativa através da qual modelos alternativos de poder, comunidade e incorporação podem ser imaginados através do ritual.
«Hexorcise» é um manifesto moderno sobre o poder da bruxa contemporânea.
Biografia
Veslemøy Rustad Holseter é uma artista multidisciplinar de som, luz e performance, originária de Grinder, Noruega, que trabalha sob o pseudónimo artístico «GRINDERTEETH» — amálgama do nome da sua cidade natal e do seu símbolo, composto por uma linha de dentes de lobo.
Os seus projetos multidisciplinares recorrem à improvisação ao vivo através da voz e da eletrónica ao vivo para construir paisagens sonoras ruidosas, impregnadas de uma atmosfera catedralícia, que misturam batidas fortes com vozes agudas em camadas, explorando tematicamente temas sociopolíticos, as profundezas da psicologia humana, reflexões sobre a vida contemporânea e o momento presente. Ao enfatizar os contrastes e criar profundidade através de camadas e ângulos, ela constrói mundos atmosféricos através do som, gradientes de cor, volume, forma e intensidade para agitar o âmago das emoções humanas.
Rustad Holseter é atualmente estudante do Mestrado em Artes e Tecnologias do Som na ESMAE, após ter concluído os estudos em Eletrónica ao Vivo na Academia Norueguesa de Música e a licenciatura com honras em Música no Instituto de Artes Performativas de Liverpool. O seu trabalho anterior abrange uma vasta gama de projetos artísticos, tais como performances ao vivo, dança contemporânea, ópera moderna, curtas-metragens e sequências documentais, instalações artísticas, iluminação de discotecas e exposições, tendo trabalhado na América do Sul, Europa, Reino Unido, Estados Unidos e Escandinávia. Pelo seu trabalho artístico e contribuições culturais através da organização comunitária, recebeu várias bolsas e prémios.


