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Dança Macabra - Carnaval dos Animais

ESMAE

Camille Saint-Saëns. Teatro Helena Sá e Costa, sexta-feira, 17 de dezembro, 19h00


E se um cisne, esta noite, nos cantasse?

Uma efeméride alegórico-musical dedicada a Camille Saint-Saëns

 

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Exatamente um século e um dia após a morte de Camille Saint-Saëns (1835-1921), ocorrida a 16 de dezembro de 1921, a ESMAE confere-lhe uma distinção, bem mais do que merecida, através da realização de um concerto a ele dedicado, assinalando com isso o ónus da responsabilidade acrescida às escolas em se evidenciarem enquanto lugares de memória.

Razões de sobra serão nele expostas incidindo em particular, e dada a extensão da sua obra monumental, em duas das suas peças icónicas (Carnaval dos Animais e Dança Macabra) e que se tornaram referências no que toca, quer ao repertório romântico da suíte orquestral, quer ao poema sinfónico.

Camille Saint-Saëns foi uma personalidade destacada da cena musical parisiense da segunda metade do séc. XIX, tendo deixado um vasto legado composicional, do qual foram extraídas, para o concerto de hoje, essas duas obras que têm em comum um articulador: a sua prodigiosa invenção melódico-harmónica.

Saint-Saëns, apesar da sua enorme desenvoltura e dos seus imensos interesses que passaram pela poesia até ao seu amor pela história e cultura dos povos, foi muitas vezes criticado pelos seus pares, pelo facto de fazer prevalecer, tendencialmente, um lado mais conservador no ato de criar música. Não obstante esses confrontos que o deixavam triste, Saint-Saëns foi sempre motivo de consideração, dado o seu talento e erudição.

 

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Fazendo uso dessa característica atrás referida – invenção melódico-harmónica – damos destaque ao Carnaval dos Animais (1886), por este ser a metáfora perfeita sobre como criticar o cenário musical francês de fin-de-siècle, com classe e elegância. No entanto, Saint-Saëns entendeu que a obra só deveria ser interpretada após a sua morte (sabemos, entretanto, que houve, no mínimo, duas representações suas ainda em vida), não viesse daí uma má interpretação dedicada ao sentido da obra, à exceção do momento-cisne, momento claro cuja seriedade explícita e apolínea era inquestionável.

Esta suíte, composta por catorze momentos específicos, contém elementos figurativos que vão desde a marcha real do leão ao desfile final de toda a “bicharada” nela exposta, incluindo um destaque aos pianistas, enquanto “animais” capazes de irritar todos aqueles que deles se aproximam.

Sabemos hoje que esta obra nasceu num período de férias de Saint-Saëns, após uma tournée fracassada e é, talvez por isso, uma obra observada como uma tentativa de expurgar esse seu fracasso, ou melhor ainda, de sacudir uma qualquer responsabilidade face àquilo a que poderíamos chamar de obra menor. Não se trata disso, obviamente, bastando para tal observar o séquito de ideias musicais que esta Grande Fantasia Zoológica contém.

 

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A Dança Macabra, poema sinfónico estreado em 1875, é inspirada numa superstição francesa que nos confronta com a ideia de que a morte – figura insuspeita sobre a qual todos tememos que um dia nos visite – pode ser vista, sempre que assim o desejarmos, em noite de Halloween, dançando efusivamente até que o galo cante e para nos lembrar do carácter efémero das nossas vidas.

Ao mesmo tempo, talvez também esteja aqui em jogo a ideia de que uma exposição sonora dedicada à finitude da arte, nos chama a atenção para levarmos em consideração que, uma qualquer obra de arte contém dentro de si características que podem ser compreendidas e contextualizadas em torno do efémero.

Em todo o caso, esta alegoria sonora acaba por falar-nos da universalidade da morte e, daí, Saint-Saëns dar importância a algo que seja realizado em comum – uma dança, por exemplo – e que nos possa unir a todos face a essa finitude, sendo ela própria, comum a todos os seres humanos.

E isto coloca-nos perante a ideia de um fim de ciclo de vida ao qual devemos atender, e a dele não fazermos tabu, dada a nossa frágil condição de vida. Razões de sobra para a vermos metamorfoseada em música.

 

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Uma efeméride, focada na obra de Camille Saint-Saëns, do nosso ponto de vista, reforça a ideia de que a transição entre o romantismo e a contemporaneidade musical aqui agora ouvida em concerto, coloca em cena uma conceção emancipatória para as artes, e para a música em particular.

Mesmo acusado de ser conservador, Saint-Saëns é exposto aqui numa disposição poética – sons e imagens – capaz de fazer jus à tradição, mas apontando caminhos singulares que, agora mesmo, se vão espraiar num futuro que já está aí mesmo a chegar.

É por isso que a ESMAE se ajusta a este jeito de pensar e de fazer música, dada o seu desejo em deixar-se ir em frente, deambulando, entre a força da tradição e a intrepidez da inovação.

Não será por isso estranho que possamos vir a encontrar ao nosso lado, no concerto de hoje, um cisne metafórico que nos sussurre um dizer sonoro que nos aponte caminhos para um encontro inusitado com a arte dos sons.

Mário Azevedo



 

Programa:

DANÇA MACABRA (1874)

CARNAVAL DOS ANIMAIS (1886)


Concerto comentado por Mário Azevedo

Flauta: Ana Raquel Lima

Clarinete: Nuno Pinto

Percussão: Manuel Campos e Francisco Fernandes

Violino: Sofia Belo e Vítor Vieira

Viola: Jorge Alves

Violoncelo: Jed Barahal

Contrabaixo: António Augusto Aguiar

Piano: Constantin Sandu e Telmo Marques



Autor

antoniogorgal@esmae.ipp.pt

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