Diziam que era um milagre, mas servia para fabricar balas...
No dia 17 de abril, às 11h00, a Sala Preta da ESMAE acolhe "A Baba do Lobo", uma criação que escava as camadas de terra e de história para expor as cicatrizes deixadas pela exploração do volfrâmio.
O título não é metáfora: o volfrâmio, vindo do alemão wolf (lobo) e rahm (baba), foi a febre do ouro negro que transformou lavradores em mineiros e paisagens em ruínas. Hoje, num momento em que Portugal volta a discutir o extrativismo e o lítio, este espetáculo da CEM Palcos e do Teatro Vila Velha surge como uma reivindicação urgente: é preciso exumar o passado para não repetir os mesmos erros no futuro.
SINOPSE
Nos anos 40 do século XX, nas regiões serranas do centro e norte de Portugal, a mineração do volfrâmio surgiu como um milagre económico, uma “febre do ouro negro” que prometia transformar a vida de muitos lavradores — até então a viver no limiar da fome —, oferecendo-lhes a possibilidade de alcançarem pequenas ou grandes fortunas. Poucos terão parado para pensar nas consequências sociais, ambientais e políticas das minas, ou na razão que levava ingleses e alemães a correr atrás da “baba do lobo”. O tão desejado volfrâmio (do alemão lobo + baba), ou tungsténio (do sueco pedra + pesada), é utilizado em ligas metálicas na indústria de armamento.
A CEM Palcos (Portugal) e o Teatro Vila Velha (Brasil) juntam-se na criação de um espetáculo que questiona e reivindica, com urgência, a necessidade de olharmos para o passado, para informar o presente e preparar um futuro mais justo para nós e para o sistema ecológico de que fazemos parte.
SOBRE…
Os recursos naturais, tal como os recursos humanos, quando explorados até ao tutano, revoltam-se contra aqueles que os exploram.
“A Baba do Lobo“ é o espetáculo que resulta do projeto de investigação artística “As Viúvas do Volfrâmio e os seus Filhos”, que juntou artistas, escritores, cientistas e pensadores de Portugal e do Brasil na criação de um espectáculo sobre a herança de um dos ofícios mais antigos do homem – a extração do minério – e sobre a relação entre o Ser Humano e a Natureza.
Dois dramaturgos Mônica Santana (BR) e Sandro William Junqueira (PT) escrevem textos originais, a partir de pesquisas e testemunhos recolhidos de um lado e do outro do Atlântico. A direção artística é de Graeme Pulleyn (PT) e Marcio Meirelles (BR). A música de Gongori (PT) e João Milet Meirelles (BR) e o vídeo de Leandro Valente (PT) e Rafael Grilo (BR). Em palco, duas bailarinas/atrizes experientes, Cristina Castro (BR) e Leonor Keil (PT), cruzam sotaques e movimentos numa linguagem performativa inovadora e complexa onde o corpo e a palavra se cruzam para levantar as grandes questões humanas e ambientais que enfrentamos.
O espetáculo junta-se às vozes que questionam, que afirmam e reivindicam, com urgência, a necessidade de olharmos para o passado, para informar o presente e preparar um futuro mais justo para nós e para o sistema ecológico do qual fazemos parte.
Nos anos 40 do século XX, o volfrâmio na região de Viseu, apareceu como um “milagre económico”, que transformou as existências miseráveis de muitos lavradores, que até então passavam fome a granjear as terras hostis do interior do país, em vidas de luxo e excesso. Poucos terão parado para pensar nas consequências sociais, ambientais e políticas da exploração mineira, ou sobre as razões que levaram, tanto ingleses como alemães,a disputarem avidamente a tão cobiçada “baba do lobo”.
Nos anos 20 do século XXI, o minério é outro, mas as questões são as mesmas. Portugal tem alegadamente algumas das maiores reservas da Europa de lítio e outros minerais raros. Surgem agora novas “oportunidades” de exploração, justificadas pela promessa de um mundo mais elétrico e eletrónico, e pelas ameaças de um mundo em guerra. Mas será este, de facto, o caminho certo para a sustentabilidade? Do outro lado do mundo, o Brasil conhece bem as dicotomias da exploração dos recursos naturais. Este debate não é sobre um bairro, ou uma nação, é sobre o mundo em que todos vivemos. Não há como separar a paisagem ecológica e a paisagem humana.
O processo criativo começa com uma “consulta popular”. Como ponto de partida, os escritores encontram-se com comunidades nos diferentes municípios parceiros portugueses, todos eles impactados pelo extrativismo, para recolher testemunhos e histórias de mineiros, mas principalmente das suas mulheres (ou viúvas) e famílias. A comunidade é, assim, uma peça fundamental na concepção e na dramaturgia da peça.
Recolhas de áudio, vídeo e fotografia fornecem um acervo que alimenta a composição da música original, a sonoplastia e os elementos videográficos. Material de arquivo é cruzado com material atual para criar um espetáculo contemporâneo, composto por camadas de sentido, capaz de falar para todos os públicos.
Com poesia e ternura, humor e dureza, raiva e beleza, “A Baba do Lobo” coloca o dedo na ferida e procura provocar a reflexão e a discussão. O passado ensina-nos que cada escolha deixa marcas profundas na paisagem e na vida das comunidades. “A Baba do Lobo” convida a pensar futuros possíveis, a reimaginar a relação com os recursos naturais, onde a procura por soluções sustentáveis é feita com a participação de todos. Só assim, poderemos criar condições para que as próximas gerações não herdem apenas histórias de exploração, mas sim histórias em que o planeta é reconhecido como uma entidade viva.
Ficha artística e técnica
De GRAEME PULLEYN e MARCIO MEIRELLES
Com base nos textos “O Tempo dos Metais” de MÔNICA SANTANA e “Os Filhos de Quarta-feira” de SANDRO WILLIAM JUNQUEIRA, o Hino dos Mineiros e canções tradicionais portuguesas e brasileiras.
No processo de criação inicial, foram realizadas pesquisas e entrevistas para a construção da peça, em Moimenta da Beira, São Pedro do Sul, Sátão, Vila Nova de Paiva, Viseu, e Vouzela (Portugal), em fevereiro de 2025. Colaboraram nesta fase, com entrevistas ou depoimentos:
MOIMENTA DA BEIRA: Paulo José Neto Pereira e Rafael Cardoso Botelho; SÃO PEDRO DO SUL: Custódia de Fátima Duarte Tavares, Manuel Almeida Costa, Manuel Campos Ferreira, Maria Celeste Gomes Duarte, Maria José Tavares Lindo, Palmira Gomes Duarte e Sandra Paula da Silva Costa;
SÁTÃO: Acácio Pinto, Aurélio de Figueiredo e Ilda de Magalhães Cândido;
VILA NOVA DE PAIVA: José Luís Ferreira dos Santos, Madalena Ferreira e Rosa Marques da Silva;
VISEU: Amadeu Carvalho, Cidália Lourenço, Ermelinda Ferreira, José Gomes de Almeida, José Marques Duarte;
VOUZELA: Almerinda Costa Ferreira Fernandes, Manuel Fernando Gomes, Maria Josefina Marques de Almeida e Palmira Mendes.
ENCENAÇÃO Graeme Pulleyn e Marcio Meirelles
ELENCO Cristina Castro (Hilda), Leonor Keil (Hilda), Graeme Pulleyn (Voz de Adolfo), Wilson de França (Narrador)
SONOPLASTIA, PRODUÇÃO E DIREÇÃO MUSICAL João Milet Meirelles e Gongori
CORO DO HINO DOS MINEIROS Ana Bento, Clara Spormann, Clara Boa Sorte, Clara Torres, Chica Carelli, Olinda Beja, Úrsula Pinto e Vanessa Faray
VOZ NAS CANÇÕES TRADICIONAIS PORTUGUESAS Maria Celeste Gomes Duarte
VOZ NA CANÇÃO “A BABA DO LOBO” Jadsa
DIREÇÃO, PESQUISA E EDIÇÃO DE VÍDEO Leandro Valente e Rafael Grilo
FOTOGRAFIA E CAPTAÇÃO DE IMAGENS ORIGINAIS Leandro Valente
OPERAÇÃO DE VÍDEO Leandro Valente e Laura Tavares / No Brasil: Rafael Grilo
FOTOS DO DESASTRE DE MARIANA (MINAS GERAIS) Christian Cravo
CENOGRAFIA Erick Saboya
CONSTRUÇÃO DO CENÁRIO Oficina do Zé Ferreiro / No Brasil: Cláudio Carijó, José Nilson, Joilson Batista e Gean
PINTURA DA TELA Luisa Brizê
FIGURINOS Marcio Meirelles
CONFECÇÃO DE FIGURINOS Saraí Reis e Marinalva Souza
DESENHO DE LUZ Marcos Dedê
OPERAÇÃO DE LUZ André Carneiro / No Brasil: Marcos Dedê
MONTAGEM DE LUZ André Carneiro / No Brasil: Marcos Dedê e Joilson Batista
IDENTIDADE VISUAL, DESIGN GRÁFICO E PAGINAÇÃO DO PROGRAMA Ramon Gonçalves
FOTOGRAFIA Luís Belo / No Brasil: Ananda Ikishima
REGISTO DE VÍDEO Luís Belo / No Brasil: Jean Teixeira
COORDENAÇÃO DE COMUNICAÇÃO E MEDIAÇÃO Guida Rolo / No Brasil: Gabriela Wenzel
ASSISTENTE DE COMUNICAÇÃO E MEDIAÇÃO Laura Tavares / No Brasil: Beatriz Zacharias
REDES SOCIAIS Laura Tavares e Susana Morais / No Brasil: Jean Teixeira e Marlon Chagas
ASSISTÊNCIA DE DESIGN Mariana Viveiros
ASSESSORIA DE IMPRENSA Susana Morais / No Brasil: Arlon Souza
COORDENAÇÃO DE PRODUÇÃO Guida Rolo / No Brasil: Beatriz Albuquerque
PRODUÇÃO EXECUTIVA Laura Tavares
ASSISTÊNCIA DE PRODUÇÃO Filipa Fróis e Hugo Miguel
ASSESSORIA JURÍDICA Pedro Leitão / No Brasil: Wilson Chaves de França
AGRADECIMENTOS ACERT – Tondela, Freguesia de Bodiosa, União de Freguesias de Barreiros e Cepões, Acácio Pinto, Fernando Vale, José Luís Ferreira dos Santos e Tomás Pereira
CRÉDITOS DAS IMAGENS EM VÍDEO
Archive.org: Minerais e Rochas; Desastre na Mina Dawson; Febre do Urânio; Pet 961 r 1; 1955 – Processo de Fábrica de Munição.
Cinemateca Portuguesa Nas Minas de Volfrâmio (1941) de António Alves de Pinho e Freitas
YouTube Portugal em 1943; Drone em Mariana (Minas Gerais), de Fernando Monteiro; Nunca Entre Aqui (Action Adventure Twins)


