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João Casimiro

Sobre a escolha de obras de Liszt, Scriabin, Bernardo Lima e András Gelleri.

1.  Como conheceu estes compositores?

O Bernardo Lima foi meu colega na ESMAE; frequentavamos o mesmo ano da licenciatura, eu em piano e ele em composição. Logo no primeiro ano fiz eu próprio uma disciplina de Composição como disciplina opcional - Orquestração Sopros - e acabei por contactar directamente com todos os compositores desse ano.

O András Gelleri é um compositor húngaro que conheci em Viena, aquando da minha participação no Concurso Internacional de Piano Rosario Marciano. A sua peça "Offene Welten" era a peça imposta para uma das fases, por ter ganho o concurso de composição Anton Matasovsky desse mesmo ano. O András esteve presente em todas as provas e durante o concurso tive a oportunidade de partilhar ideias com ele.

 

2. Qual a razão da escolha destas obras e como se inscrevem no conjunto do programa?

A principal razão da escolha das obras é o poder mostrar ao público diferentes tipos de música dos dias hoje. A obra "Offene Welten" de András Gelleri apresenta, durante grande parte do tempo, sonoridades consonantes e diatónicas, longe do Serialismo ou de outras correntes mais carregadas de dissonância e cromatismo.

Por outro lado, as duas peças de Bernardo Lima mostram algo mais parecido com os pensamentos do início do século XX (as peças "homenageiam" a Segunda Escola de Viena e Bela Bártok, respectivamente); a 1ª peça é muito fragmentada e dissonante, e a 2a peça está carregada de cromatismo e contraponto invertido.

No contexto integral do programa, existe uma progressão quase "anti-cronológica" do atonalismo para o tonalismo. Os 5 Prelúdios de Scriabin são ouvidos depois de duas obras contemporâneas, assumindo a modernidade das suas obras tardias, onde as suas sonoridades dos "acordes místicos" e das escalas octatónicas ganham mais relevo.

Em Nuages Gris, de Liszt, embora tenhamos tecnicamente uma tonalidade - Sol menor - a mesma fica ambígua devido ao contexto das obras anteriores, bem como aos diversos momentos em que a obra proporciona essa dicotomia.

A Sonata inicia-se com a nota Sol, num ambiente também ambíguo, muito semelhante àquele introduzido por Nuages Gris; só minutos mais tarde, após várias sequências e modulações, chegamos finalmente a Si menor, terminando a viagem até ao Tonalismo.

 

3. Sente uma maior liberdade quando executa obras contemporâneas?

Não lhe chamaria liberdade, mas são experiências distintas. Tocar uma obra contemporânea significa estar em contacto com a Arte de agora, do presente, e saber que estamos de certo modo a fazer História, por mais pequena que ela seja. Para além disso, o poder ter contacto directo com o compositor proporciona uma melhor compreensão do material e daquilo que ele quer representar; esta partilha de ideias é fulcral para os intérpretes manterem o sentido criativo e imaginativo.

Ao tocar obras contemporâneas sinto que sou livre apenas no sentido em que não existe uma quantidade de informação e estudo gigante sobre a obra em questão, comparando por exemplo com qualquer sonata de Beethoven. Por outro lado, não sou completamente livre pois há o contacto directo com os compositores e com as suas ideias, o que não acontece com qualquer outro tipo de obra.

 

4. Existe alguma obra recente que gostasse de tocar?

Imensas. Em termos de obras contemporâneas, estou a trabalhar neste momento a Klavierstück 6 - Bagatellen de Wolfgang Rihm, mas relativamente a obras recentes, penso que posso incluir Stockhausen, compositor que comecei há pouco tempo a descobrir. Depois deste recital começarei a trabalhar a Klavierstück 9.

 

5. Nas obras clássicas e românticas está-se mais ligado à tradição. A passagem do tempo traz consigo alguns constrangimentos. De que forma um jovem pianista de 23 anos, como o João Casimiro, encara a interpretação da Sonata de Liszt, um dos marcos do pianismo romântico?

A Sonata de Liszt é, em si mesma, um dos pilares da música para piano e também um resumo de toda a corrente do Romantismo na Música. Desde o tratamento da forma, harmonia, melodia ou desenvolvimento temático, é uma obra que resume em 30 minutos todo um século de inovações musicais. É uma obra com uma estrutura sólida, mas com um carácter inventivo e improvisatório quase sempre presente, por cima dessa mesma estrutura.

E é um pouco dessa forma que encaro a interpretação da Sonata. A base interpretativa tem uma estrutura, tem um passado, tem um estilo; mas todas as interpretações de uma peça são, no seu tempo e espaço, contemporâneas, e é com essa base que tento acrescentar algo meu à obra, de cada vez que a toco. Depois de ter estudado e assimilado o que a obra contém, o momento de performance é não só o momento de mostrar a obra, mas também aquilo que significa para mim. É, de resto, aquilo que tento fazer passar com todas as obras que toco.