Entrada > Notícias > Entrevistas > Bernardo Pinhal, Sérgio de A

Bernardo Pinhal, Sérgio de A

Sobre obras de Schoenberg/Webern, Ravel e Stravinsky

O repertório para 2 pianos compreende um vastíssimo leque de obras clássicas, românticas e modernas. Para este recital escolheram transcrições de obras para orquestra de 3 dos compositores mais importantes do início do séc. XX. Schoenberg, Ravel e Stravinsky. Qual o motivo  desta escolha?

Estou de acordo! Quando nos encontrámos para escolher o reportório a tocar, por alguma razão só falámos de reportório do séc XX, e a Sagração foi a primeira escolha, quase sem falar. Uma escolha muito óbvia, na verdade - afinal ambos tocámos as três danças de Petrushka para piano solo (e muita gente nos associa invariavelmente a essa obra) e somos os dois muito fãs dos bailados, do Nijinsky e da Pina Bausch que já tínhamos aliás visto juntos, mais que uma versão. O Schoenberg foi escolha do Sérgio, que passou meses de volta da partitura a analisar aquilo tudo. É uma obra do outro mundo. O Ravel foi escolha minha - é possivelmente o meu compositor favorito (se só tivesse que escolher um) e achei que algo tinha que quebrar com a violência da Sagração e aproximar-se do lado fantástico do Schoenberg.

 

Embora escritas na mesma época (entre 1907 e 1913), cada uma desenvolve aspectos composicionais específicos. Quais os desafios representam, em termos pianísticos e musicais, a execução destas obras?

O Schoenberg é difícil, ponto. Temos compassos diferentes sobrepostos que de algum modo têm que coincidir. Ritmos e motivos de natureza totalmente diversa a coexistir, grupos de notas, "harmonias" muito difíceis de ouvir em conjunto. Às vezes foi compasso a compasso... A Sagração é mais imediato do que parece, mas exige conhecimentos de análise e inteligência. Entender a duração dos motivos, as suas derivações, e essencialmente perceber as harmonias e as tonalidades que estão acontecendo por causa desses motivos. Além do óbvio, muita energia e ritmo, aliás, que todo o ritmo tenha entrado bem no nosso corpo. A música toca-se com todo o corpo, não apenas com as mãos. E os silêncios são gestos rítmicos também. O Ravel tem a dificuldade que tem todo o Ravel, basicamente a de não deixar que as nossas vontades e os nossos instintos (a "nossa musicalidade") interfiram com a música, mas que a sirvam; ouvir bem, com poesia, mas também distância...

 

A transcrição de Webern contribuiu para uma melhor compreensão da complexidade da escrita da op.16 de Schoenberg?

Sim! Do mesmo modo que a transcrição do Stravinsky da sua própria obra ajuda muito mais a entendê-la, naturalmente. A diferença é que esta é a única obra que tocamos que efectivamente foi composta para ser tocada especificamente em dois pianos, e não a quatro mãos, por isso as opções que Webern achou em termos "pianísticos" são muito interessantes, muito refinadas. O mesmo já não acontece bem com a transcrição de Stravinsky da sua própria obra. Aí algumas coisas que se vai ouvir são notas que acrescentámos, coisas que mudámos, tempos que faltavam, coisas que não funcionam que foram substituídas por outras. Aquilo está óptimo na mesma, digo, simplesmente nota-se que não foi bem uma transcrição para ser tocada ao vivo, finalizada, mas um modo de a apresentar mais prático. Não havia Spotify na altura, não é? 

 

É a perspectiva analítica ou a intuitiva que orienta a interpretação deste tipo de repertório?

Ambas, claro. O instinto é educado com o tempo, com a idade. É sempre muito importante, principalmente em palco. Mas o instinto sem um conhecimento mais profundo do que se está a fazer não serve de nada, principalmente no reportório que estamos a fazer. É preciso conhecer. Não estou a dizer que só há uma resposta certa para as coisas, pelo contrário, há muitas hipóteses redondamente erradas e muitas certas. Encontrar as erradas ajuda a encontrar as certas.

 

Quando se toca em conjunto com outros músicos é preciso sobretudo encontrar um equilíbrio entre estilos de execução e alcançar uma fusão de personalidades. No vosso caso...

No nosso caso e acima de tudo somos amigos, e isso não só é muitíssimo mais divertido como é uma vantagem para trabalhar, claro. É tudo muito mais fácil, não há barreiras, rimo-nos das coisas, "picamo-nos". A música que tocamos neste concerto não dá grande espaço para personalidade, como imagina, tirando um momento ou outro muito isolado do Ravel (do Ravel, sim!) portanto isso não é problema. Há muitas hipóteses, muitas coisas de gosto e muitas opções que discutimos, claro, mas é isso: fala-se e já está. Problema é fazer música decente com dois pianos de quase três metros de tamanho que fazem um barulhão inacreditável, principalmente quando ensaiamos à noite, depois de um dia em que por causa das nossas profissões já passámos umas dez horas ao piano. A essa hora o som dos passos de alguém já me incomoda a cabeça, imagine pensar em Schoenberg... isso é que é um problema.